Se o mundo não vai acabar, por que continuar apostando no ouro?

27 março. 2012

Achei muito interessante o artigo de James Saft, articulista da Reuters,  cuja tradução de Mario Zamarian foi publicada  no Valor Economico sob o titulo : SE O MUNDO NÃO VAI ACABAR POR QUE CONTINUAR APOSTANDO NO OURO. A seguir a transcrição literal do artigo.

Uma aparente recuperação econômica e uma queda recente no preço do ouro têm levado os investidores a ser perguntar se o metal precioso não perdeu seu lugar nos portfólios. Depois de subir desde o princípio da crise financeira, o ouro acumula uma desvalorização superior a 10% desde o pico atingido em setembro. Em grande parte, o castigo do ouro se deve à melhoria dos indicadores econômicos e uma sensação de que o sistema bancário não vai implodir – por piores que as coisas estejam na Europa.

Então, se o mundo não está acabando, por que ter ouro? Colocando em dúvida a posse do ouro está nada mais, nada menos, que Warren Buffett, que defende as ações e classifica o ouro de um ativo não produtivo. Por que manter ouro, que nunca inova, nunca aumenta as margens de lucro e nunca abre novos mercados? “Se você mantiver uma onça de ouro por uma eternidade, você ainda terá uma onça de ouro no fim desse período”, escreveu Buffett em sua mais recente carta anual aos acionistas.

“Esse tipo de investimento exige um grupo crescente de compradores, que, por sua vez, são atraídos por acreditarem que, comprando, esse grupo vai crescer ainda mais”, disse Buffett. “Os proprietários não são inspirados pelo que o próprio ativo pode produzir – ele continuará sem vida para sempre -, e sim pela crença de que outros o vão desejar mais avidamente no futuro”.

O ouro, observa Buffett corretamente, beneficiou-se primeiro dos negócios motivados pelo medo, estimulados por investidores que temem que os bancos centrais e os governos possam articular uma grande inflação com o objetivo de corroer suas dívidas.

Em segundo lugar, assim como acontece com todos os ativos cujos preços sobem muito, o ouro recebeu um empurrão de compradores de momento, aqueles que jogam seu dinheiro em uma corrida na esperança de sair quando a tendência perder força. Remova esses suportes e o ouro deverá cair, rápida e acentuadamente.

Certamente Buffett está correto sobre a incapacidade do ouro de procriar ou crescer, mas acredito que ele apresenta os negócios movidos pelo medo exageradamente como uma barganha do tipo tudo ou nada. O ouro é um tipo de anti-investimento, uma apólice de seguro contra ações ruins de outras pessoas. É claro que ele não inventa uma coisa nova que o tornará rico, mas também não vai, como alguns executivos de empresas, pagar-se em excesso e mudar os preços de suas opções de ações.

É razoável pensar, dada a sequência recente de indicadores, que outra rodada de afrouxamento quantitativo é menos provável nos Estados Unidos. Isso certamente deverá reduzir o valor corrente do ouro, que, ao contrário das notas do dólar, não pode criar vida pela decisão de um banco central.

Mas é importante lembrar que o impacto do afrouxamento quantitativo não termina se o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) simplesmente não imprimir mais dinheiro. Ainda há o problema de como enxugar o grande volume de liquidez de uma economia em recuperação.

É importante observar que títulos de dívida de longo prazo dos EUA têm sido vendidos com vigor recentemente. Isso poderá ser totalmente benigno, uma vez que pode simplesmente refletir uma perspectiva mais otimista de crescimento, daí uma perspectiva mais normal para a inflação.

No entanto, o investidor ficaria preocupado com o que pode acontecer com as expectativas de inflação se, e quando, esse movimento em direção a taxas maiores for sustentado. Se o Fed atraiu o crescimento para “fora de sua caverna”, ele poderá ter dificuldade para colocar a inflação para dormir. O ouro é o seguro contra isso, embora como a maioria dos seguros é bem provável que ele seja pago, mas mesmo assim tem valor.

“Como proprietário de ouro (e de ações da Berkshire Hathaway) posso afirmar categoricamente que não tenho ouro por achar que o futuro será dominado pela malversação monetária. Tenho porque acho que isso pode acontecer”, escreveu Dylan Grice, estrategista do banco Société Générale em uma nota a clientes.

Uma recuperação econômica, que é apenas uma suposição a esta altura, não resolve o problema do endividamento de longo prazo dos EUA e das economias europeias, muito menos o problema demográfico do Japão. É um pouco cedo para afastar totalmente essas preocupações. Espertamente, Grice também observa que a comparação correta não está entre as ações e o ouro, e sim entre o dinheiro e o ouro.

Certamente Buffett entende o valor de opção do dinheiro. Afinal de contas, ele está sempre pronto para fazer grandes investimentos quando uma companhia que ele admira está passando por necessidades e proporciona a ele um bom preço. O ouro na verdade é simplesmente uma outra forma de dinheiro, embora uma com características de risco diferentes das do dólar, euro ou iene. Assim como o dinheiro, ou as ações, o ouro não é uma proposta do tipo tudo ou nada, e sim uma parte útil de um portfólio. 

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