VIVER DE DIVIDENDOS É SONHO OU PESADELO

24 janeiro. 2012

Achei muito didático o artigo escrito por André Rocha e publicado no Valor Econômico, sobre esse assunto e decidí reproduzí-lo aqui no meu blog.

É o sonho de muitas pessoas viver da renda proporcionada pelos dividendos. E alguns conseguem. Mas o montante de dividendos recebidos é a única condição a ser observada? Montar uma carteira de dividendos é um bom investimento?

Suponhamos o caso de uma pessoa com gasto mensal de R$ 30 mil que tenha investido R$ 7,2 milhões em uma ação com um retorno anual de dividendos de 5%. Esse investidor consegue ter suas despesas cobertas pelo recebimento de dividendos. Mas esse investimento superou o “custo de oportunidade”?

Ao investirmos em ações é importante observarmos a rentabilidade de um ativo livre de risco. Esse é o custo de oportunidade. No caso brasileiro, ele é dado pela taxa Selic, que hoje está em 11,5% ao ano. Pode-se obter essa rentabilidade comprando um título público federal conhecido como LFT. Levando-se em conta o imposto de renda (IR), cuja alíquota varia de 15% a 22,5% dependendo do prazo do investimento, o retorno cai para a faixa de 8,9% a 9,8% anuais, ainda assim superior ao proporcionado pelos dividendos. Logo, somente os dividendos, nesse caso, não tornam a aplicação em ações atrativa. É necessário que haja também um ganho de capital, a diferença entre o preço de venda e o de aquisição da ação.

E mais. Não basta que os ativos apresentem a mesma rentabilidade. O ganho obtido com ações deve apresentar um prêmio sobre a rentabilidade das LFTs, chamado de “equity-risk premium”, pois o mercado acionário é mais arriscado. No Brasil, não há estudos a respeito. O professor Aswath Damodaran, da New York University, disponibiliza em seu site o cálculo do “equity-risk premium” para o mercado acionário americano. Em novembro, ele encontrava-se em 6,49% ao ano.

Outro ponto a ser destacado em uma carteira de dividendos é que algumas ações que a compõem podem apresentar baixa liquidez. Portanto, a formação de preço acaba sendo deficiente, o que impede um cálculo apurado do “dividend yield”. Sem contar que, caso o investidor necessite dos recursos, ele tende a vender suas ações com desconto devido ao maior spread, ou seja, diferença entre o preço de compra e de venda do papel. 

Além disso, a política de dividendos das empresas não é imutável. Veja o caso de Eletropaulo (ELPL4). Na divulgação do resultado do segundo trimestre de 2011 (em 10 de agosto), a companhia informou que reduziria o percentual de dividendos a ser distribuído sobre o lucro (“pay-out ratio”), pois considerava que boa parte do resultado do primeiro semestre não havia sido recorrente, ou seja, não iria se repetir no futuro. A empresa havia se beneficiado do dólar depreciado, que reduziu as despesas com energia de Itaipu que são dolarizadas.

Há ainda a expectativa de que as tarifas da concessionária se reduzam na próxima revisão. Por causa do anúncio, a ação caiu 5,4% no dia 11, enquanto o Ibovespa subiu 3,79%. A perda de capital nesse dia “comeu” boa parte do rendimento oriundo dos dividendos do ano. Interessante dizer que a ELPL teve problemas financeiros no início da década de 2000 e, naquela ocasião, a companhia não era uma boa pagadora de dividendos. O mundo dá voltas.

Outro caso interessante é o de Transmissão Paulista (TRPL4). Cerca de 70% de suas concessões vencem em 2015. Ninguém ainda sabe ao certo o que ocorrerá. Caso a TRPL tenha que pagar uma tarifa ao órgão concedente, a geração de caixa será reduzida, o que poderá impactar negativamente o pagamento dos dividendos.

Ações de companhias com política de dividendos agressiva devem fazer parte do portfólio de qualquer investidor. Mas os dividendos pagos não podem ser o único parâmetro. O ideal é ter uma carteira balanceada, incluindo ações defensivas e cíclicas. As cíclicas tendem a apresentar melhor desempenho na recuperação dos mercados. Além disso, as companhias geradoras de caixa podem passar por infortúnios ao longo do tempo e, como conseqüência, alterar sua política de dividendos. Por fim, compare anualmente a rentabilidade de sua carteira (dividendos + ganho/perda de capital) vis-à-vis o custo de oportunidade.

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