RECOMPRA DE AÇÕES É UMA FACA DE DOIS GUMES

26 outubro. 2011

O The Wall Street Journal publicou um interessante artigo, escrito por Maxwell Murphy, sobre o tema, o qual foi também reproduzido pelo Valor Economico.

Muitas grandes empresas têm recorrido às recompras de ações como uma maneira de elevar o retorno aos acionistas e satisfazer investidores ativistas, mas os resultados comumente decepcionam.

Inclusive no Brasil, períodos de queda nas bolsas são cada vez mais acompanhados de anúncios de recompra de ações, com o correspondente debate sobre a utilidade e a efetividade dessa manobra.

Em teoria, as recompras não apenas retornam dinheiro para os acionistas que vendem as ações de volta para a companhia, como também recompensam aqueles que as mantêm, ao reduzir o total de ações em circulação, o que consequentemente aumenta o valor relativo do investimento.

Mas as coisas nem sempre funcionam assim, por razões que podem ser simples como um “timing” ruim. Neste ano, as 30 companhias que integram a Média Industrial Dow Jones gastaram, até 7 de agosto, um total de aproximadamente US$ 70,6 bilhões para recomprar ações que valiam US$ 65,3 bilhões. Isso é equivalente a uma perda de 7,5% no investimento, o que supera o declínio de 3,9% da Dow Jones no mesmo período.

Desde o começo de 2007, ano que marcou o pico das operações de recompra, até 7 de outubro, o mesmo grupo de empresas gastou cerca de US$ 614,2 bilhões recomprando ações que valiam no fim da primeira semana de outubro US$ 590,8 bilhões. Ainda que a baixa de 3,8% seja menor que a queda de 10,8% da Dow Jones no mesmo período, não deixa de ser um retorno negativo.

Alguns especialistas em finanças corporativas argumentam que as empresas só deveriam recorrer a recompras raramente, quando muito, porque o dinheiro pode quase sempre ser melhor usado para fazer aquisições ou injetado novamente para financiar a expansão do próprio negócio.

“Acho difícil de acreditar que não seja possível gerar mais valor para os acionistas por meio de aquisições estratégicas ou empregando o capital no crescimento da empresa ou na melhoria de projetos, em vez de apenas recomprar ações”, diz o diretor financeiro de uma das empresas que integram o índice Dow Jones.

Mas tanto os defensores quanto os céticos concordam que há recompras eficientes e ineficientes, e que essas últimas podem destruir, em vez de criar, valor para os acionistas.

Recompras podem funcionar quando as empresas não pagam muito caro pelos papéis e quando reduzem de forma relevante o número de ações em circulação. Mas encontrar o momento correto de realizar a operação pode ser difícil. Quando as empresas estão com excesso de caixa, como é o caso de muitas americanas atualmente, as ações podem registrar picos de curto prazo. Por outro lado, as ações comumente atingem um piso quando as empresas estão sem caixa e tentam controlar os gastos.

O caso da International Business Machine Corp. mostra como recompras podem ser benéficas tanto para a empresa quanto para seus investidores. Desde o fim de 2006, de acordo com documentos apresentados às autoridades de mercado, a IBM recomprou US$ 60,3 bilhões em ações que valeriam a mais de US$ 91 bilhões hoje. Mais de 60% das 504 milhões de ações recompradas permaneceram fora do capital social; o que significa que elas não foram recolocadas no mercado, por exemplo, em pacotes de remuneração de executivos que incluem pagamento baseado em ações.

Como consequência disso, entre outros fatores, o total de ações em circulação da IBM recuou 20% nesse período, ao mesmo tempo em que o preço do papel quase dobrou. Enquanto a companhia elevou seu dividendo por ação em 150%, o desembolso total com dividendos aumentou apenas 100%.

“Ao longo da última década, investimos cerca de US$ 70 bilhões em despesas de capital e aquisições (de 116 empresas) e quase US$ 60 bilhões em pesquisa e desenvolvimento voltados para áreas identificadas como de alto valor”, disse um porta-voz da IBM em uma nota. “Nós retornamos US$ 89 bilhões para nossos acionistas com recompras de ações e, no fim de 2010, nosso dividendo trimestral era cinco vezes maior do que em 2000.”

Apesar desse tipo de resultado positivo, Gregory Milano, diretor-presidente da Fortuna Advisory LLC, firma de consultoria corporativa de Nova York, diz que o “primeiro problema [com a recompra] é um erro de pensamento estratégico”. Milano é crítico em relação à maioria dessas operações, que ele diz que normalmente geram baixa rentabilidade.

Sua fórmula para calcular o retorno anual do investimento de uma recompra pesa a média do preço pago pelas ações, a cotação atual e o dinheiro economizado com dividendos por conta da redução da quantidade de papéis em circulação. Segundo esse critério, as empresas da Média Industrial Dow Jones que tiveram maior retorno com essas operações desde 2007 são IBM e McDonald’s, com índices de 19,4% e 19,1%, respectivamente.

O pior desempenho – excluindo Bank of America Corp., que não compra seus próprios papéis desde 2007 e precisaria de autorização regulatória fazê-lo, e Alcoa Inc., que interrompeu a prática no fim de 2008 para se “focar no caixa”, em meio à recessão – foi da Hewlett-Packard Co., com retorno negativo de 23,3% nas recompras.

A HP gastou cerca de US$ 45 bilhões recomprando mais de um bilhão de ações desde 2007. Embora o preço médio de compra seja bem maior que a cotação atual, a companhia reduziu o total de papéis em circulação em mais de 25%.

Mesmo assim, isso não ajudou a ação, cujo preço tem sido corroído por anos de mudanças seguidas no alto comando, erros corporativos e fraco desempenho.

Meg Whitman, nova diretora-presidente da HP, disse em setembro que “as prioridades de longo prazo para alocação de capital da companhia continuam sendo […] investir no negócio, recomprar ações e pagar dividendos”.

Ela reiterou o posicionamento da HP de que um programa de recompra mais moderado seria necessário no curto prazo com o objetivo de se “reconstruir o balanço patrimonial” da empresa. Mas ela acrescentou que a HP está “comprometida a, no mínimo, evitar totalmente a diluição” do valor aos acionistas resultante de emissões ligadas a programas de remuneração de executivos.

Para desenhar uma recompra eficiente, é importante que as empresas sejam claras sobre seus motivos e objetivos. Assim, tanto executivos como investidores podem julgar melhor o sucesso ou fracasso do programa.

 

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