NÃO HÁ MOTIVOS PARA PESSIMISMO

01 outubro. 2011

O ex-presidente do Banco Central do Brasil e sócio da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola, escreveu para o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, um artigo publicado hoje (1/10/2011) , sob o mesmo título, através do qual faz uma análise clara, objetiva, didática e suscinta da atual crise pela qual vêm passando os paises da zona do Euro. No artigo é feita uma avaliação dos mais prováveis desfechos da crise e dos efeitos que poderiam advir para o Brasil. Reputo esta, como uma das melhores análises que tive oportunidade de ler sobre esse assunto,  e como concordo inteiramente com o autor,  tomei a decisão de  reproduzi-la neste meu blog. Escreveu Gustavo Loyola :

 ” Fazer qualquer previsão sobre o desenlace da crise europeia não é tarefa fácil. Há diversas variáveisem jogo e não pode ser descartada a possibilidade de acidentes de percurso. Mas é possível traçar dois cenários para o problema europeu. No primeiro, o default se circunscreve à Grécia e a Comunidade Europeia consegue isolar os demais países e os sistemas bancários nacionais dos efeitos negativos do calote grego. No cenário alternativo, há default por parte de outros países, com fortes repercussões sobre os bancos europeus, principalmente se Itália e/ou Espanha forem atingidas.

Para que o primeiro cenário se materialize, é necessária a reestruturação ordenada da dívida da Grécia, com vistas a pôr seu endividamento numa trajetória sustentável, ao mesmo tempo que haveria a recapitalização dos bancos afetados. Para os demais países com dificuldades – Portugal, Irlanda, Espanha e Itália -, mas que ainda são solventes, haveria abundantes recursos comunitários para assegurar a liquidez necessária para rolar sua dívida, por meio do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF). Neste caso se estaria aplicando a recomendação de Walter Bagehot no seu célebre livro Lombard Street, segundo a qual é necessário prover liquidez ilimitada aos bancos solventes numa situação de crise financeira. O EFSF serviria de emprestador de última instância, cumprindo um papel que o Banco Central Europeu teria dificuldades estatutárias e conceituais para executar. Apesar das dificuldades políticas e técnicas de implementação das medidas, este é o cenário mais provável, até porque as alternativas são bem mais custosas.

De todo modo, não se deve descartar a possibilidade do cenário alternativo, em que haveria uma crise financeira de grande intensidade, causada pelo default desordenado de países soberanos. Este cenário derivaria da impossibilidade de os países europeus agirem tempestivamente, principalmente em razão de obstáculos políticos. Os líderes europeus seriam atropelados pelos mercados, gerando uma crise financeira aberta, cujo tratamento se daria por medidas isoladas dos países, com baixo grau de coordenação entre eles.

As consequências para o Brasil seriam bem distintas dependendo da ocorrência de cada um desses cenários. No primeiro caso, os efeitos sobre nossa economia se dariam primordialmente pelo canal de comércio, fruto de menor taxa de crescimento da economia mundial. Trata-se de cenário moderadamente desinflacionário que afetaria o crescimento do PIB, mas sem afastá-lo substancialmente de sua trajetória potencial. Neste caso, as preocupações domésticas do Banco Central (BC) estariam ainda mais focadas na inflação, pois a demanda continuaria relativamente aquecida e a inflação de serviços seguiria mostrando forte rigidez para baixo. Não ocorreria o cenário de crise aventado pelo Copom na última ata.

Por sua vez, no cenário de default desordenado, as consequências sobre a economia brasileira tenderiam a se assemelhar aos fatos observados em setembro de 2008, quando da quebra do Lehman Brothers. A propagação da crise para o Brasil viria fundamentalmente da retração da liquidez internacional, com efeitos sobre o crédito doméstico e sobre a confiança dos agentes econômicos. Neste caso, o cenário pessimista do BC se materializaria e estaria justificado o afrouxamento monetário preventivo. Novas ações da autoridade monetária, seja de baixa de juros ou de liberação de recolhimentos compulsórios, deveriam se seguir. Nesta hipótese, o ideal seria um “mix” de política econômica com emprego mais intensivo da política monetária e menor uso da política fiscal, diferentemente do observado em 2008-2009.

Embora neste último caso os efeitos sobre a economia brasileira sejam importantes, os fundamentos macroeconômicos e os instrumentos de política disponíveis dão razoável conforto de que os efeitos da crise serão passageiros, a exemplo do ocorrido em 2009. Em suma, mesmo num cenário mais difícil, não há motivos para pessimismo em relação ao Brasil, exceto se cometidas barbeiragens na condução da política econômica.”

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