Ações de siderúrgicas

30 junho. 2011

As ações de empresas do setor de siderurgia têm apresentado performance positiva nos últimos pregões, após o parlamento da Grécia aprovar o plano de austeridade fiscal que permitirá ao país continuar a receber ajuda financeira internacional. Os analistas acreditam que os investidores voltaram às compras após uma maior certeza de que a Grécia não precisará declarar moratória de sua dívida pública, o que seria um desastre para a economia mundial. Outro fator positivo para esse setor foram as declarações feitas pelo Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, durante audiência pública na Câmara dos Deputados. De acordo com as palavras do Ministro o governo tem grande interesse em discutir soluções negociadas para redução do preço do aço no mercado nacional junto com o setor de siderurgia, pois acredita que o aço produzido no Brasil precisa ser mais competitivo em relação aos preços internacionais. Baseados nessas declarações os analistas apostam que o governo estaria  considerando uma redução de impostos à cadeia produtiva do setor, auxiliando as empresas a reduzirem o preço do aço no mercado nacional, mantendo suas margens de lucro. Praticamente todas as  siderúrgicas vêm acompanhando esse movimento de alta, com destaque para ações preferenciais da Usiminas (USIM5) seguidas pelas ações da Gerdau (GGBR4), Metalúrgica Gerdau (GOAU4) e Companhia Siderúrgica Nacional (CSNA3).

 

Todo mundo todo sabe que a crise financeira da Grécia pode ter profundas implicações para outros países europeus e para a economia mundial como um todo. Se o país não fosse membro da união européia a declaração de uma moratória (que significaria deixar de pagar os juros das dívidas ou pressionar os credores a aceitarem pagamentos menores e perdoarem parte da dívida), não seria um grande problema, porque a economia grega em si tem pouca expressão. Isso já aconteceu no passado com as dividas de países da America Latina (entre eles a Argentina e o Brasil) e o mundo não acabou. Entretanto nas condições atuais da  Grécia, isso traria enormes dificuldades pois negaria a hipótese de que a UE e o Banco Central Europeu dariam suporte aos países membros, exatamente para evitar calotes. Nesse contexto uma moratória grega poderia estimular outros países em dificuldades, como Irlanda e Portugal e mesmo Espanha e Itália a fazerem o mesmo, criando uma crise sistêmica de proporções gigantescas. Se ocorresse a opção pelo calote, os bancos europeus que emprestaram dinheiro seriam afetados de forma dramática. Mesmo os bancos americanos e asiáticos que não possuem exposição direta aos títulos da divida grega, seriam também afetados porque têm investimentos nos bancos europeus. Some-se a isso o fato de que os países asiáticos, principalmente a China e o Japão, também teriam siuas economias profundamente abaladas porque cerca de 40% de suas exportações são para os países da zona do euro. É por isso que esses China e Japão têm aplicados apreciáveis recursos na compra de títulos gregos. Portanto, bancar a ajuda aos países com problemas e evitar seu calote, é imprescindível. E isso será feito sem dúvidas. O problema é encontrar uma forma adequada de promover a ajuda. A única maneira viável parece passar pelo perdão parcial da divida. Isso significaria que, em vez de a Grécia tomar dinheiro emprestado junto aos organismos oficiais (Banco Central Europeu, FMI, etc) para pagar dívidas de vencimento imediato, os bancos teriam de concordar em renegociar essas dívidas, provavelmente em termos mais favoráveis aos gregos. Mas os bancos europeus  não dispões de reservas suficientes para absorver os prejuízos decorrentes. Seriam necessários anos para conseguirem acumular as reservas necessárias  (como foi feito no caso das dividas dos países latino-americanos). A alternativa seria os Bancos Centrais aportarem recursos aos bancos de seus países para financiá-los pelo prazo necessário. Mas ainda assim continuaria pairando no ar a dúvida sobre o fato de que um calote grego pode fazer com que investidores questionem se a Irlanda e Portugal não seguirão o mesmo caminho, já que os pacotes de resgate oferecidos a esses dois países foram estruturados para ajudá-los  até que seus governos fossem novamente capazes de obter dinheiro no mercado. E o  que acontecerá com a Espanha, que só tem conseguido obter dinheiro no mercado a custos crescentes? É importante destacar que a economia espanhola equivale à soma das economias grega, irlandesa e portuguesa e seria muito mais difícil para a UE estruturar, caso seja necessário, um pacote de resgate para um país dessa dimensão. É por isso que a ajuda definitiva para a Grécia virá, mas somente quando for encontrada uma forma criativa do ponto de vista econômico e político para a situação.

No dia em que o Brasil comemora a queda do risco soberano do país, que pela primeira vez na história ficou abaixo dos índices dos Estados Unidos (ainda que circunstancial, o “Credit Default Swap”, ou CDS, – instrumento de proteção contra o risco de um devedor não cumprir suas obrigações- do Brasil tem sido negociado abaixo do norte-americano mostrando que, na prática, investidores vêem mais risco de calote dos Estados Unidos que do Brasil), o jornal Valor Econômico publica um artigo escrito, a seu pedido, pelo economista Francisco Lopes, sob o título em destaque, o qual eu reputo bastante interessante e preocupante ao mesmo tempo.

Escreve Francisco Lopes:

“A inflação de 2012 deverá ficar abaixo de 5%, com a economia crescendo entre 4% a 4,5%. Será, porém, uma vitória de Pirro. Em algum momento ocorrerá uma inevitável correção para cima na cotação do dólar, com grande probabilidade de uma traumática “parada súbita”.

O Brasil não acumula reservas porque produz superávit nas transações com o exterior. A acumulação resulta do ingresso de capital, sendo só 20% em investimento direto. Temos, então, um paraíso para o especulador estrangeiro, que se beneficia do diferencial nas taxas de juros. Esse movimento adquire todas as características de uma bolha especulativa. E bolhas sempre evoluem para o colapso. Nosso palpite é que a bolha de acumulação de reservas deva estourar em algum momento entre 2013 e 2015, com uma forte e rápida depreciação do real e possível perda de grande volume das reservas. O controle amplo de capitais pode simplesmente antecipar o momento de ruptura da bolha. Uma das poucas coisas que o governo pode fazer agora, diante dessa perspectiva inevitável, é preparar planos de contingência para o amortecimento da desvalorização.”

A BOVESPA E O IBOVESPA

14 junho. 2011

Por mais que surjam notícias positivas parece que os investidores teimam em acreditar que a situação não está melhorando e que o pior esteja por vir. Há algumas semanas quando os problemas internacionais pareciam ter sido equacionados, com boas sinalizações vindas da Europa, dos Estados e da China, ocorreu um aumento preocupante nos índices de inflação no Brasil e os investidores se retraíram com medo de que novas medidas macroprudenciais fossem tomadas para sustar o consumo e reduzissem os lucros da empresas. Agora com os diversos índices inflacionários mostrando sensível declínio eis que os preços dos ativos voltam a sugerir uma renovação do contágio de países europeus, uma vez que os temores de um possível calote da divida da Grécia estão crescendo no mercado financeiro. Os investidores preferem aguardar na expectativa de que os preços se reduzam ainda mais para então voltarem às compras. Ontem, um dia normal, sem feriados aqui ao lá fora, o volume negociado na Bovespa foi um dos mais baixos dos últimos meses, esforçando-se para chegar ao R$ 4 bilhões. Hoje notícias bem positivas sobre a performance econômica da China, com um crescimento industrial apontando para um crescimento de 13,3%, animaram as bolsas européias que subiram acima de 1,6%. Mas na Bovespa o mercado não reagiu com o mesmo entusiasmo. Falta realmente dinheiro novo para empurrar o Ibovespa. Os investidores estrangeiros têm voltado ao mercado brasileiro, mas de maneira ainda muito tímida. Depois de três meses fortemente negativo, o saldo de investimento externo na Bovespa, fechou positivo em R$ 2,9 bilhões em maio. Alguns analistas acreditam que esse saldo positivo, indica que o Brasil voltou ao radar dos investidores externos e que é uma questão de tempo para que sua presença seja mais forte, contribuindo para uma recuperação dos volumes e dos preços das ações. Se a melhora interna, com índices de inflação em baixa, realmente for mantida é bem provável que o fluxo de investimentos para a Bovespa aumente nas próximas semanas e que o Ibovespa volte a se recuperar.

INVESTIMENTO EM AÇÕES

11 junho. 2011

Vem ganhando força entre os participantes do mercado bursatil, nos últimos meses, uma percepção mais negativa em torno do Ibovespa (índice que mede a variação das cotações das ações mais negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA). Num ambiente em que o estado de espírito otimista ou pessimista costuma ser contagiante (fenômeno conhecido como efeito manada, no jargão do mercado), um certo ar de desânimo parece predominar entre os que acompanham o sobe e desce do índice diariamente. Uma pergunta que exige resposta em momentos como este é a seguinte: Será que, num mundo complexo, onde o Brasil ainda ostenta perspectivas positivas muito acima da média, um momento de correção nos preços dos ativos em geral e das ações em particular, só pode ser visto como negativo? Muitos gestores e analistas, que há muito acompanham a bolsa, acreditam que não. Um dos mais simples axiomas do mercado estabelece que para obter lucros é preciso comprar na baixa e vender na alta. E, em épocas de vendas generalizadas, empresas com bons fundamentos acabam sendo descontadas em meio a um movimento sem seletividade. Além disso, existem outras estratégias disponíveis, de acordo com os mais diferentes perfis de investidores. O potencial das empresas boas pagadoras de dividendos é algo que tem sido bastante sublinhado pelos especialistas. Existem ainda estratégias alternativas, principalmente envolvendo os mercados futuros, que permitem ganhar mesmo num ambiente de baixa, embora nesse caso os movimentos embutam maiores riscos por serem mais especulativos. Em nossa visão, os investimentos em ações são mais rentáveis que quaisquer outros, no longo prazo e esta é uma ocasião bastante oportuna para montar ou ampliar uma carteira de ações e aproveitar o fato de que muitos papeis estão com preços bastantes sub-valorizados.

O Ibovespa, como um todo, não tem conseguido se recuperar de forma consistente. Entretanto as ações, com maior peso no índice, têm sofrido mais. Por exemplo, as ações preferenciais da Gerdau já caíram no ano 25,1%; as ordinárias da OGX Petróleo têm queda de 22,1%; as preferenciais da Petrobras se desvalorizaram 10,6%, enquanto as preferenciais do Itaú Unibanco caem 8,5% e as do Bradesco, 5,4%. As preferenciais da Vale perderam 8,2%. Alguns desses papéis estão com os menores indicadores desde a crise de 2008, o que é um sinal inequívoco de que o atual movimento de queda está exagerado. Esse é exatamente o caso dos bancos. O preço sobre lucro (P/L – índice que mede em quantos anos o investidor terá de volta o valor aplicado) do Itaú está em 9 vezes e, no entanto, no pior momento da crise de 2008, esse indicador esteve entre 11 e 12 vezes. O mesmo acontece com o Bradesco. O P/L da Vale está em apenas 5. Na opinião da maioria dos analistas os investidores exageraram na venda das ações pois, por pior que seja o cenário da bolsa, a maior parte dessas grandes companhias possui bons fundamentos e, portanto, não deveria sofrer dessa forma. A exceção entre as empresas referidas acima, é a Petrobras, cuja ingerência do governo em sua gestão provoca incertezas sobre os lucros futuros da empresa. Um bom exemplo é a resistência do governo em não aumentar o preço dos combustíveis, com o objetivo de manter a inflação sob controle.

Mas, os fatos negativos que pairam sobre essas grandes companhias já estão integralmente embutidos nos preços de suas ações. Nas siderúrgicas ocorreu uma mudança estrutural no preço do aço, provocada pelo excesso de oferta mundial. No caso dos bancos, foram os efeitos das medidas (batizadas de macroprudenciais) adotadas pelo governo para conter a inflação. Já em relação à Vale, existe o temor de uma desaceleração mais brusca da economia da China – o maior consumidor de minério do mundo – e as incertezas em torno da recente mudança do presidente da empresa. Como todas essas são ações que têm participações relevantes na composição do Ibovespa, por serem negociadas em volumes substanciais nos pregões diários, o que quer que aconteça com elas dita o rumo do principal indicador do mercado brasileiro. Por isso é fácil concluir que a recuperação do Ibovespa só ocorrerá quando os preços dessas ações se recuperarem também.

Em sua próxima reunião que terminará na quarta feira (8 de junho), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, muito provavelmente deverá optar por um aumento na taxa Selic em 0,25 ponto percentual. O comunicado e a própria ata da reunião deverão também trazer indicações sobre a intensidade e a duração que poderá ter o ciclo de aperto monetário. A maioria dos analistas acredita que ainda poderão ocorrer mais dois aumentos de 0,25 cada um, o que elevaria a taxa básica para 12,5% ao ano. Mas não está descartada a possibilidade de um terceiro aumento que levaria a Selic a 12,75% ao ano, uma vez que o Banco Central parece disposto a fazer o que for necessário para trazer a inflação de volta ao centro da meta em 2012. Os sinais emitidos pelas autoridades monetárias são de que o Copom não se deixará influenciar pelos dados referentes a redução da inflação em maio (e as expectativas de um índice bem baixo em junho e julho) e a queda da produção industrial ocorrida em abril. O último boletim Focus prevê que o IPCA do próximo ano estará em 5,1%. Cabe à política monetária, através da taxa de juros, reduzir essas previsões para algo próximo do centro da meta, de 4,5%. Para a inflação convergir para esse patamar, no ano que vem, é indispensável que o crescimento da economia, nos próximos 12 meses, fique aquém do Produto Interno Bruto (PIB) potencial, cuja estimativa atual gira em torno de 4,5%.Há indícios de que está efetivamente ocorrendo uma desaceleração da economia neste segundo trimestre – com o PIB crescendo mais perto do seu potencial. A questão que surge é se o Copom terá autonomia suficiente para continuar aumentando os juros, se isso for necessário, nos meses em que a inflação estiver baixa.

É interessante notar que vivemos um raro momento em que aumentos das taxas de juros podem, por paradoxal que possa parecer, ser benéficos para o mercado bursátil. É que esses aumentos indicariam a firme determinação das autoridades monetárias em conter a inflação. Isso é tudo o que o mercado deseja.