Índice Bovespa, o pior do mundo: o terremoto foi aqui

03 maio. 2011

Preços das commodities metálicas: + 27% em dólar; agrícolas: + 35%, petróleo: + 65%; dissipação de grande parte das dúvidas quanto à recuperação da economia mundial; mercado passando por problemas de solvência dos países periféricos da Europa, graças à surpreendente pujança da Alemanha; política monetária “expansionista no limite” nos países desenvolvidos pouco alterada, sobretudo nos EUA, com as bolsas voltando a apresentar notável desempenho (S&P:+ 29% e DAX:+ 48%); transição democrática no Brasil sem grandes mudanças no campo político e econômico. Esse foi o cenário vivido desde agosto/10 até abril/11.

Se os investidores pudessem voltar no tempo, com o poder mágico de conhecer esse futuro, qual seria nossa óbvia decisão em relação às ações brasileiras? Compra! Na prática, o resultado final para o aplicador local foi muito ruim nos últimos oito meses. O Ibovespa subiu pífios 1,5% em reais, com os ganhos dos estrangeiros em ações concentrados na valorização da moeda brasileira, que saltou de R$ 1,79 por dólar para R$ 1,60.

Observando o atual estágio de ‘precificação’ do mercado local, o mistério é reforçado. Com PLs 2011 e 2012 em 10,5 e 9,2, o Ibovespa opera com desconto de, respectivamente, cerca de 10% e 25% em relação às bolsas emergentes e desenvolvidas. Em termos de previsão de crescimento de lucros, a média de 19% das empresas brasileiras em 2011 supera a de emergentes e desenvolvidas (18% e 16%), com empate nas estimativas para 2012, na casa dos 13%.

Não acredito na tese simplista de que a maior parte desse desconto é explicada por fatores “top down”, como uma piora de percepção de risco, oriunda de uma suposta “frouxidão brasileira” no combate inflacionário, dado que não é exclusividade tupiniquim “aceitar mais inflação” atualmente. Foi fato a reversão de fluxo de capitais dos países emergentes para desenvolvidos, motivada pela melhora relativa no ambiente nos EUA e Europa vis a vis à deterioração macroeconômica no segundo grupo. Isso não explica o desempenho do Ibovespa tão pior do que a média dos próprios emergentes – por exemplo, a bolsa da China, país que tem mais sofrido pelo maior peso das commodities nos seus índices de inflação, superou a performance do Ibovespa com folga.

A bolsa de Tóquio, cujo país sofreu um terrível terremoto, seguido de tsunami e acidente nuclear, superou em 3% em dólar e em 10% na moeda local o Ibovespa no período estudado. Afinal, por que a Cinderela brasileira virou abóbora?

Dado o excelente desempenho das ações ligadas ao mercado local (varejo, consumo, imobiliário e bancos) em 2010, é normal se esperar, em fase de aperto monetário, uma correção de preços. No caso específico dos bancos, a performance tem sido afetada pelo repetido anúncio de medidas macroprudenciais, que miram o crédito.

A grande frustração veio das ações de commodities. No caso da Vale, o processo de substituição do CEO (não a substituição em si) trouxe fortes ruídos na empresa. Com o minério subindo 25% no período, o desempenho das concorrentes BHP e Rio Tinto superou o da mineradora brasileira em 20%. No caso da Petrobras, esperava-se recuperação após a capitalização e a alta do petróleo, mas a relutância do governo em reajustar o preço dos combustíveis por conta do impacto inflacionário (provavelmente a redução da CIDE seria a melhor solução) mais a coincidência infeliz da disparada do preço do álcool trouxeram ceticismo.

Além do péssimo desempenho mundial do setor siderúrgico, com compressão de margens após a inundação do aço chinês, outra grande oferta secundária de ações da Gerdau pressionou os papéis do setor, resultando em violenta desvalorização generalizada. Aliás, as “teses nacionalistas”, que pregam a reorientação de recursos da produção de minério de ferro (do qual estamos, graças a um privilégio divino, em um exclusivo grupo de produtores) para a siderurgia (que vive competição mundial feroz), deveriam ser repensadas.

Podemos estar diante de boas oportunidades. Em condições normais, o desconto atual do mercado brasileiro não faz sentido. Porém, cabe lembrar que o fator ‘timing’ vem ganhando relevância na composição dos retornos. Seria prematuro ainda afirmar que o atual desconto de múltiplos de nossa bolsa seja “estruturalmente merecido”. Os mercados nem sempre estão certos, mas cabe o alerta que “terremotos” dentro das empresas, sobretudo os originados de placas tectônicas de governança corporativa, trazem “tsunamis” de destruição de valor e perigos para o futuro das companhias até mais graves do que “meros” acidentes nucleares.

Alexandre Póvoa é presidente do Modal Asset Management

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