Comenta-se que o mercado bursatil está sem tendência nas últimas semanas. Na verdade, uma análise um pouco mais apurada e tendo como parâmetro um período mais longo, evidencia que a Bovespa está rigorosamente “andando de lado” há algum tempo. Um levantamento, efetuado por analistas, mostra que desde outubro de 2009, o Índice Bovespa oscila entre os 60 mil e os 71 mil pontos. Apesar de ser um intervalo grande, de 11 mil pontos entre o piso e o teto, ele é pequeno considerando o prazo de quase um ano e meio (15% em 18 meses). Ainda segundo esse levantamento, desde pelo menos o ano 2000 não se vê uma estabilidade dessas se estendendo por um período tão longo. Esse cenário é resultado de uma seqüência de problemas e de indefinições que marcaram esses meses, no âmbito econômico. Desde o inicio de 2010, foram surgindo os contratempos internacionais que começaram com Grécia e se estenderam por Portugal, Espanha e Irlanda.

Já no final do ano passado, após as eleições presidenciais, começaram a surgir os primeiros temores com relação aos efeitos que o crescimento econômico poderia ter sobre a inflação no Brasil. Neste ano, quando a situação externa parecia mais calma, irromperam os conflitos no Oriente Médio e no norte da África e, mais recentemente, ocorreu toda a tragédia no Japão. “Essa série de indefinições externas e internas é que vem fazendo o mercado acionário não encontrar direção alguma”, comenta um analista.

Para a bolsa definir uma tendência, seja para cima ou para baixo, pelo menos uma parte do cenário precisa se definir.  Ao que parece situação interna pode estar próxima de ter um desfecho, e felizmente para o bem, o que deve fazer com que a bolsa tenha chances de ganhar fôlego. A opinião consensual da maioria dos analistas é que o aperto monetário já realizado e as medidas “macroprudenciais,” já adotadas, serão suficientes para arrefecer a alta da inflação. O Boletim Focus (documento que mostra a expectativa das instituições financeiras com relação aos indicadores da economia) já aponta alguma estabilidade nas projeções de inflação para 2012, o que é um bom sinal. Além disso, os juros no mercado futuro pararam de subir nas últimas semanas, outra indicação de que, possivelmente, não seja necessária uma nova rodada de aperto monetário com o objetivo de conter a alta dos índices de preços. Os últimos sinais macroeconômicos são positivos e podem levar o Ibovespa, a romper positivamente esse intervalo e passar a operar num patamar mais elevado.

Interessante notar que essa falta de tendência do mercado é ainda mais inusitada quando se considera a excelente safra de resultados das companhias brasileiras. Em 2010, com quase todos os balanços já publicados, os lucros cresceram em média 25% e este ano a expectativa é de uma alta em torno de 20%.

Essa falta de direção do mercado constitui o pior cenário possível para se ganhar dinheiro na bolsa. A saída tem sido fazer operações de curto prazo com o objetivo de se beneficiar das oscilações que ocorrem durante o pregão. Está muito difícil ganhar com estratégias de longo prazo, independentemente dos fundamentos das companhias ou dos setores a que ela perteçam.

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 É inacreditável o que se tem visto no ambiente da Vale S/A, uma das maiores empresas brasileiras,  responsável por dezenas de milhares de empregos e por polpudas divisas provenientes de suas exportações. De uma empresa medíocre, enquanto pública, tornou-se um expoente mundial após a privatização. Permanece, entretanto, o mal estar causado pela contínua pressão do governo, em relação à troca do presidente da Vale. A pressão é tamanha que parece inevitável a saída de Roger Agnelli, o que provoca certo desconforto entre os investidores porque não se sabe quem será seu sucessor. Como se sabe Roger é um executivo de carreira do Bradesco, que foi indicado pelo banco para a presidência da Vale há mais de 10 anos. Sob sua condução, após a privatização, a Vale teve um  crescimento espetacular, tanto operacionalmente quanto na geração de lucros. A Vale ainda internacionalizou-se com a compra das empresas de níquel no Canadá e deu importantes passos para se tornar um player mundial no setor de fertilizantes. Roger ficou atravessado na garganta de Lula e do PT como um todo, por não se submeter aos anseios políticos do partido. A pressão foi tão forte que a Comissão de Fiscalização e Controle Financeiro, da Câmara dos Deputados, solicitou a presença do Ministro da Fazenda para prestar esclarecimentos sobre o assunto.

Como destacou a Revista Exame, as manobras que estão sendo realizadas pelo governo para a retirada de Roger Agnelli da presidência da Vale  violam princípios básicos de governança e de transparência. O governo não pode utilizar expedientes escusos para tomar o controle de uma empresa privada, só porque possui participação acionária expressiva.
A intervenção, nesse caso, é abusiva, já que desconsidera totalmente a opinião dos funcionários, acionistas minoritários e fornecedores, maiores interessados no bom funcionamento da empresa. Essa manobra, de cunho político, busca aumentar a influência do governo dentro da empresa, para, possivelmente, ocupar cargos de interesse do governo, contratar empresas próximas ao governo e, até mesmo, aumentar a influência do governo nos meios de comunicação. Isso, além de prejudicar os grupos citados, ainda coloca em risco a imagem do país.
 
Aparentemente, pelo que se tem notícia, o Bradesco (líder dos acionistas controladores) concordou com a saída de seu executivo desde que o substituto venha dos próprios quadros da Vale, tenha um perfil técnico e nenhuma vinculação política. Se isso se concretizar os investidores tenderão  a voltar a olhar com bons olhos a empresa, pois estarão afastadas, pelo menos no curto prazo, hipóteses de ingerências políticas na sua administração.

 A Caixa de Empregados da Usiminas (CEU) colocou oficialmente à venda a participação de 10,1% que possui no capital votante da companhia. Essa já era uma decisão esperada, uma vez que a CEU necessita desses recursos para poder cumprir suas obrigações com os aposentados. Conforme comentei na matéria de meu post de 21 de fevereiro, os demais acionistas majoritários (Nippon Steel, Camargo Correa e Votorantim) prevendo esse evento, já haviam firmado novo acordo de acionistas que será vigente de 2016 a 2035, excluindo a CEU do grupo controlador.  Dessa forma as ações pertencentes à CEU, somente integrarão o grupo controlador até 2016. O inusitado dessa operação é que a CEU contratou o Credit Suisse para fazer a venda (entenda-se achar um comprador), muito embora os demais acionistas controladores detenham o direito de preferência para essa aquisição. Movimentos paralelos deixam no ar outras interrogações. O grupo Gerdau acaba de anunciar, justamente hoje,  um grande IPO, com o objetivo de captar mais de R$ 5 bilhões, sem explicar exatamente para que se destinariam esses recursos. No entender de alguns analistas a finalidade seria a aquisição de ações da Usiminas. A CSN já havia vindo a público anunciar que estava comprando ações da empresa e que pretendia aumentar sua participação. Agora, também, o grupo ítalo-argentino Techint, se apresenta como interessado. É curioso esse interesse, tendo em vista que, a pouco mais de um mês, a Usiminas se desfez de sua participação na Ternium (empresa do grupo Techint) por mais de US$ 1 bilhão.  O mais curioso ainda é que tanto a Gerdau como a Techint manifestam seus interesses exatamente quando o grupo japonês Nippon Steel está tendo dificuldades por conta dos desastres ocorridos no Japão. O fato é que a Usiminas se apresenta como a jóia da coroa, cobiçada por grandes players. Será que esses grupos querem aproveitar a momentânea debilidade dos japoneses para forçar um ingresso na Usiminas? O tempo dirá.A verdade que se pode constatar é que as ações da Usiminas têm subido bastante, especialmente as ordinárias e que os fundamentos da empresa estão cada vez melhores.

 

 

A DROGASIL é uma das principais redes de farmácias do Brasil, com ”market share” superior a 4%. Após um bem sucedido “block-trade” de mais de 3 milhões de ações( que se encontravam em tesouraria)  realizado em setembro de 2010, a companhia embolsou a expressiva cifra de R$ 126 milhões (quase R$ 2 reais por ação em circulação), dos quais R$ 86 milhões representados por lucro na operação e levados diretamente para Reserva de Capital. Essas ações haviam sido adquiridas por decisão do Conselho de Administração durante o ano de 2008 (ano em que se verificou a queda de mais de 50% do índice Ibovespa). Essa operação isolada, somada aos excelentes resultados operacionais obtidos em 2010, permitiram que a DROGASIL encerrasse o exercício, exibindo recursos em caixa e aplicações financeiras da ordem de R$ 196 milhões, correspondentes isoladamente a 70% de todo passivo circulante exigível. Esta é, sem dúvida alguma, uma situação de invejável conforto, que além de propiciar o financiamento de futuras expansões, propiciará, também, a obtenção de robustos lucros provenientes de aplicações financeiras. Não foi à toa que as ações da DROGASIL se valorizaram 50% em 2010 (enquanto o Ibovespa alcançou apenas 1%) e prometem uma boa valorização em 2011.

 Após ter sido alcançado um crescimento econômico em 2010, que refletiu a surpreendente expansão de 7,5% do PIB, as expectativas para 2011 convergem para uma taxa bem mais modesta, ao redor de 3,5%, quando o ideal seria pelo menos 5%. Que uma forte desaceleração já vem ocorrendo não há dúvidas. Dúvidas existem em relação a outros aspectos como: os efeitos inflacionários dos R$ 55 bilhões aportados ao BNDES; se ocorrerão efetivamente os cortes orçamentários propostos e até quando será possível conviver com a taxa de câmbio aos níveis atuais, como instrumento anti-inflacionário. Nesse contexto de incertezas, pode-se notar a existência de, pelo menos, duas correntes de pensamentos defendendo pontos de vista diferentes. Uma delas, na qual nos incluímos, defende mais rigor no combate à inflação em detrimento de um crescimento maior. Outra, mais expancionista, mostra preferência para uma austeridade menor com os gastos públicos para obter um crescimento maior. Pelo que foi deixado transparecer na ata da última reunião do COPOM, os problemas estão bem mapeados tanto pelo Banco Central, quanto pela equipe econômica e as medidas a serem adotadas já estão identificadas. O Governo parece disposto a adotá-las, quer seja na esfera do BC (que deve voltar a atuar sobre a liquidez do sistema financeiro) quer seja no âmbito da execução de um ajuste efetivo dos gastos públicos. Alguns exemplos estão aí. A presidente já se manifestou pelo adiamento “sine-die” do dispêndio de R$ 15 bilhões para a compra dos aviões caça. Foi, também, inflexível ao negar o atendimento dos pedidos dos governadores do Nordeste, região que pesou fortemente em sua eleição. Negou-se, ainda, a aumentar a carga tributaria, refutando a hipótese do aumento ou da criação de novos impostos e ganhou a batalha contra o aumento maior do salário mínimo, que seria mais inflacionário. Tudo leva a crer que a opção do Governo é no sentido de manter um crescimento moderado, porém com inflação menor e taxas de juros mais contidas. Se for assim o mercado, provavelmente, irá aplaudir.

                                                                                                                                                                             

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central deixou claro que daqui para  frente será praticada uma nova política monetária que levará em conta dois importantes fatores: o intervalo estabelecido para as metas de inflação é para ser efetivamente levado em consideração e não apenas o centro da meta; e as medidas macroprudenciais (um novo jargão para denominar a restrição ao crédito) existem para serem usadas. Essa nova postura transparecida na ata deu indicações de que o ciclo de aperto monetário está próximo do fim. O mercado já está apostando que, na próxima reunião do COPOM em abril, deverá ocorrer uma última elevação de 0,5 pontos na taxa SELIC a qual encerrará esse ciclo. Por outro lado, novas medidas de contenção do consumo poderão ser aplicadas. Isso significa que o Banco Central passará a adotar uma abordagem híbrida de combate à inflação e que um processo de aperto monetário agressivo já saiu do radar. As ações dos bancos refletiram essa mensagem e caíram fortemente nos últimos pregões.

 Os investidores em geral, e os que gostam das ações de empresas construtoras em especial, reagiram muito mal ao anúncio de cortes, da ordem de R$ 5 bilhões, no programa Minha Casa, Minha Vida, como parte da contenção de custos prevista nos cortes orçamentários do govêrno de R$ 50 bilhões, para 2011. O efeito foi imediato na BOVESPA. As ações das construtoras caíram entre 20% e 25% na expectativa de uma redução na demanda por novas moradias destinadas à população de baixa renda, segmento no qual reside a maior aposta do setor. Entretanto vários analistas estão recomendando a compra desses papéis, indicando inclusive que as quedas nas cotações abriram uma janela de oportunidades. O motivo é que os valores destinados à habitação este ano serão maiores do que os do ano passado. O govêrno apenas reduziu a projeção dos investimentos no programa. Isso quer dizer que serão construídos mais imóveis este ano do que em 2010, embora menos do que o projetado antes dos cortes serem anunciados. Mas os analistas recomendam, também, que o investidor fique atento à taxa de juros e inflação, uma vez que os compradores de imóveis financiados são sensíveis a mudanças nas taxas de juros e aos reajustes inflacionários. Outro problema é que com juros mais elevados as prestações são maiores, o que afeta o nível de renda exigido para a contração de empréstimos. No médio prazo, se os custos para financiamento dos imóveis aumentarem poderá haver um impacto negativo na demanda por novas moradias. O mercado parece ter exagerado no pessimismo com todos esses fatores e, conseqüentemente, do impacto que teriam sobre as construtoras. Mas apesar do exagero na queda, acredito que os investidores só vão voltar para os papéis de construtoras de forma consistente quando houver uma percepção clara de que a inflação parou de subir e, em conseqüência, os juros poderão começar a cair. Até que isso aconteça, essas ações tem todos os ingredientes para continuarem com suas cotações apresentando alta volatilidade.