TEMPESTADES REIVINDICATÓRIAS VARREM O ORIENTE MÉDIO

24 fevereiro. 2011

Os mercados globais que, assustados com as mudanças ocorridas no Egito, já estavam quase se acalmando, viram irromper vários movimentos, nascidos no seio da juventude, que estão se alastrando para outros países do norte da África do Oriente médio. Desde o último final de semana, ocorreram protestos e reivindicações em países como Argélia, Bahrein, Iêmen, Líbia e Marrocos.

 Tais movimentos me fazem lembrar os versos de nosso glorioso Castro Alves, que morto em 1871, aos 24 anos, deixou-nos estrofes tão atuais:

Quando nas praças se eleva

Do povo a sublime voz…

Um raio ilumina a treva

O Cristo assombra o algoz…

                ***

A praça! A praça é do povo

Como o céu é do condor

É o antro onde a liberdade

Cria águias em seu calor.

Senhor!…pois quereis a praça?

Desgraçada a populaça

Só tem a rua de seu.

Ninguém vos rouba os castelos

Tendes palácios tão belos

Deixai a terra ao Anteu.

                ***

Mas embalde…Que o direito

Não é pasto de punhal

Nem a patas de cavalo

Se faz um crime legal…

Ah! Não há muitos setembros

Da plebe doem-lhe os membros

No chicote do poder,

E o momento é malfadado

Quando o povo ensangüentado

Diz: já não posso sofrer.

               ***

Mas parece que os governantes daquelas regiões continuam imaginando que podem se perpetuar no poder e teimam em ignorar os anseios por mudanças mais abrangentes que vêm emanando da população de seus países e ganhando importância sistêmica. São na grande maioria reivindicações de melhores condições de vida, mais empregos e mais liberdade.

As eclosões desses movimentos simultâneos, se já não atingiram, estão muito próximas de atingirem o ponto de “no return” com implicações para a economia mundial. E os países ocidentais, meio que perplexos, percebem que há muito pouca coisa que possam fazer para compensar os efeitos econômicos desses eventos, no curto prazo. Dentre esses efeitos, pode-se elencar três mais importantes: o aumento do preço do petróleo e os efeitos inflacionários dele decorrentes; uma maior estocagem preventiva de outras commodities cujo efeito será também uma elevação de preços e o fato de que os países da região muito provavelmente irão diminuir sua importações, afetando o comércio exportador de outros países. Nesse ambiente, momentaneamente conturbado, os países ocidentais podem permanecer apenas como meros expectadores, tentando tão somente intervirem, por meio de notas de protestos e pela ação limitada dos órgãos internacionais, para reduzir o uso e os efeitos da violência contra os manifestantes.

Alguns governantes, de países mais sujeitos a um contágio, estão tentando tomar algumas providências para evitá-lo. É o caso do rei Abdullah da Arábia Saudita que retornou ao seu país, após três meses de ausência para tratamento de saúde. Abdullan ordenou, entre outras medidas, que fossem efetuadas doações de milhões de dólares para famílias pobres e um perdão de dívidas para quem não tenha condições efetivas de quitá-las, esperando com isso evitar que movimentos reivindicatórios cheguem à Arábia Saudita.

Nos próximos dias será possível avaliar, com maior precisão, a reação dos mercados diante de todos esses acontecimentos e seus desdobramentos. Se a situação não se acalmar rapidamente, é possível que um movimento de aversão ao risco, de maior intensidade, se espalhe pelos mercados de ações e de crédito. Mas como não há mal que sempre dure, toda essa preocupação provavelmente diminuirá, na medida em que ocorra a percepção de maior estabilidade no longo prazo nessa região. Vamos aguardar e esperar que Castro Alves seja mais lido.

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Uma resposta to “TEMPESTADES REIVINDICATÓRIAS VARREM O ORIENTE MÉDIO”

  1. Ricardo de Lima Says:

    Muito interessante este texto sobre o Oriente Médio, percebo que a população está acordando em relação aos perpétuos comandantes. Estão percebendo que o ganho é unilateral e que preferem manter a população distantes do resto do mundo.

    Infelizmente sangue será derramado mas, na história sempre houve e com certeza os frutos que serão colhidos beneficiará a nação como um todo.
    Quando teremos este tipo de ação popular aqui na América? Venezuela e Bolívia são países que estão sob comando semelhantes mas, creio que a população ainda demorará à acordar.

    Um abraço.


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